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Parahub: porque criámos uma associação e o que estamos a construir

Andrey PerlievParahub - Associação
August 25, 2026
7 min read

Há um imposto invisível sobre quase tudo o que fazemos online. Não aparece numa fatura. Ninguém o aprovou em referendo. Mas cada vez que uma padaria em Braga vende um bolo pela internet, cada vez que um freelancer em Aveiro recebe um pagamento, cada vez que dois vizinhos combinam uma troca — alguém no meio fica com uma fatia.

Plataforma Comissão
Amazon 8–15 % + logística
Upwork 10 % ao freelancer
Uber 25 % ao condutor
PayPal / cartões 2–3 % por transação
Booking 15–25 % ao hotel

Para uma família portuguesa de quatro pessoas, o custo acumulado destas comissões — em compras, vendas, serviços, pagamentos — pode, segundo estimativas do setor, ultrapassar os mil euros por ano. Não é um imposto do Estado. É um imposto privado, cobrado por empresas estrangeiras, sem votação, sem transparência, sem alternativa visível.

A Parahub nasceu de uma pergunta simples: e se a infraestrutura digital pertencesse às pessoas que a usam?

Uma associação, não uma "startup"

Infraestrutura cívica digital integrada na paisagem tradicional portuguesa — telhados com painéis solares, antenas discretas, pessoas a conversar na praça

A 8 de abril de 2026, numa notária em Cascais, Parahub passou de projeto pessoal a associação de direito privado sem fins lucrativos — PARAHUB — Associação, com sede em Monção (norte de Portugal), NIPC 519190904 e Direção eleita pelos membros. Não é uma "startup". Não tem investidores. Não precisa de crescer infinitamente para justificar a sua existência.

Esta escolha não foi acidental. Uma "startup" precisa de gerar retorno para quem investiu. Para isso, precisa de monetizar os seus utilizadores — e o caminho mais curto é sempre o mesmo: sentar-se entre as pessoas e cobrar portagem. É por isso que quase todas as plataformas financiadas por capital de risco acabam a fazer a mesma coisa: começam abertas e acabam fechadas, começam baratas e acabam caras, começam pelo utilizador e acabam pelo acionista.

Uma associação não tem acionistas. As decisões vinculativas são tomadas em Assembleia Geral, com voto auditável e atas publicadas. Não há CEO. Para consultas e deliberações comunitárias, Parahub oferece ainda ferramentas de democracia líquida — o mesmo sistema que disponibilizamos a qualquer comunidade que o queira usar.

O que é infraestrutura cívica

Há uma pergunta que distingue uma aplicação de uma infraestrutura: consegue dizer qual é a sua aplicação favorita de água canalizada? Provavelmente não. Ninguém tem. A água chega quando abre a torneira. A luz acende quando carrega no interruptor. Quando funcionam, são invisíveis. Quando deixam de funcionar, uma civilização inteira pára.

O Parahub foi pensado do mesmo lado desta divisão. Não é uma app que precisa da sua atenção. Não é uma rede social que mede o sucesso em minutos de ecrã. É infraestrutura — como um aqueduto ou uma estrada municipal. Ninguém faz publicidade a uma estrada. Ela simplesmente funciona.

Código aberto, licença MIT: qualquer pessoa pode copiar, inspecionar, modificar, usar. Qualquer município ou cooperativa pode montar o seu próprio servidor — e se o nosso servidor desaparecer amanhã, todos os outros continuam a funcionar, porque são nodos independentes, não clientes de uma plataforma.

Cinco princípios que o código garante

Estes não são valores que se recitam numa assembleia anual. São restrições embutidas no código — em vários casos garantidas pela matemática, não pela boa vontade dos administradores. Se um dia quisermos quebrá-los, o sistema deixa de funcionar.

Princípio O que significa Porque é irreversível
O seu dinheiro permanece consigo A plataforma nunca segura fundos — nem um cêntimo, nem um satoshi Não existe mecanismo no código para reter pagamentos. Vizinhos pagam-se diretamente
As suas chaves ficam no dispositivo Não conseguimos ler as suas mensagens nem aceder à sua carteira As chaves são geradas no seu aparelho e nunca saem dele. O servidor só vê a parte pública
A confiança vem dos vizinhos Quem o verifica são pessoas reais que o conhecem pessoalmente São precisas 3 verificações. Quem verifica falso perde o próprio acesso
Código aberto Qualquer pessoa pode ler cada linha de código que corre nos nossos servidores Licença MIT. O repositório é público. Não há caixa negra
Pertence aos membros As decisões são tomadas por quem usa, não por quem investiu Não há investidores. A associação é governada pelo mesmo voto que oferece

O que já funciona

Não estamos a vender uma visão. A plataforma está em produção, com vinte e quatro módulos funcionais, em seis línguas. Tudo o que está nesta lista funciona hoje — e cada ponto é descrito em profundidade nos posts seguintes desta série:

  • Energia P2P — autoconsumo coletivo entre vizinhos (DL 15/2022), monitorização em tempo real, sinal automático de excedente solar
  • Transporte público em tempo real — milhares de rotas e paragens em Portugal e noutros países, com dados abertos
  • Troca direta (barter) — cadeias até cinco pessoas encontradas automaticamente: legumes por logótipo por canalização, sem dinheiro
  • Democracia líquida — votações com delegação transitiva, voto assinado digitalmente, prova matemática de integridade
  • Contratos P2P — assinatura bilateral com prova criptográfica, arbitragem por pares, exportação para tribunal
  • ParaSOS — botão de emergência por bairro, três níveis de alerta, grupos de vizinhos que chegam em minutos
  • Diretório verificado — como as Páginas Amarelas, mas com mapa, fotos e avaliações verificadas por vizinhos reais
  • Eventos comunitários — das festas de aldeia às assembleias de freguesia, com chat encriptado automático
  • Casa inteligente — integração com Home Assistant sem nuvem, controlo local, privacidade total
  • Mapa aéreo comunitário — ortofotos por drone, gratuitas, em código aberto, atualizadas em horas
  • Vídeo federado — vídeo próprio sem YouTube nem Facebook, a viver em servidor da comunidade e visível em toda a rede federada (Mastodon, PeerTube)
  • Sites de freguesias e blogs comunitários — sites institucionais e blogs em domínio próprio, com editor simples e histórico versionado
  • Rede mesh comunitária — routers com firmware aberto que se ligam entre vizinhos, criando uma malha local sem depender de um único operador

O modelo económico

Zero comissões em transações entre pessoas. Tudo o que dois vizinhos façam entre si — vender, trocar, assinar, votar, partilhar energia — passa direto, sem portagem.

O Parahub financia-se através de três fontes:

  • Doações voluntárias — 0 %, 0,1 % ou 1 % nas transações Lightning, à escolha do utilizador
  • Anúncios que pagam ao utilizador — o anunciante paga, quem vê recebe, o Parahub não fica com nada
  • Taxa de gestão energética — 1 %, obrigação legal do DL 15/2022 para a entidade gestora de uma comunidade de energia

Cada cêntimo é rastreável. Qualquer membro pode seguir a cadeia de gastos — desde a doação até ao beneficiário final. As contas são públicas. O código que as processa também.

Junte-se

Vizinhos de várias gerações a construir juntos um arco de pedra com uma malha digital brilhante ao pôr-do-sol numa aldeia portuguesa

A Parahub é construída por uma equipa pequena numa vila do norte de Portugal, com uma visão que não é pequena: que a infraestrutura digital pertença às pessoas como pertence a água, a luz e a estrada. Que ninguém cobre portagem entre vizinhos. Que cada cidadão tenha voz nas decisões que afetam a sua vida — não de quatro em quatro anos, mas quando a decisão acontece.

Se isto lhe faz sentido, há três formas de começar:

  1. Use. Entre em parahub.io, crie uma conta, explore. Cada módulo tem a sua página dedicada.
  2. Contribua. O código está aberto. Se é programador, o post 32 desta série explica como montar o seu próprio nod.
  3. Traga os vizinhos. O Parahub só funciona quando há pessoas reais. Partilhe este post com alguém que precise de ler.

O próximo post desta série começa a explicar porquê — com os números da fatura de eletricidade que toda a gente paga e quase ninguém

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